Metonímia e Testemunho #primeiroassédio #meuamigosecreto #artecontemporânea

Walter Benjamin atribuía à arte a possibilidade de antecipar, com os meios disponíveis em um determinado momento histórico, experiências que só futuramente estariam incorporadas à percepção humana. O dadaísmo, segundo ele, teria antecipado os choques aos quais posteriormente o cinema iria nos habituar. A fascinante tese de Benjamin funciona muito bem para compreendermos a arte moderna, que se desenvolveu em paralelo a transformações tecnológicas cujo ritmo, visto a partir de nossas sociedades hiperaceleradas, é relativamente lento. Talvez, contemporaneamente, seja mais difícil colocar as coisas nestes termos.

Nas últimas semanas duas hashtags ocuparam os feeds dxs usuárixs brasileirxs do facebook: #primeiroassédio e #meuamigosecreto. Ambas, como a maioria de nós sabemos, emergem catalisadas pelos retrocessos políticos que recentemente experimentamos no Brasil, capitaneados por figuras representantes de um patriarcalismo abjeto, com tonalidades medievais. #primeiroassédio acompanhava relatos de assédios sofridos por mulheres. A universalidade desta experiência – TODA mulher já foi assediada – aparecia junto com uma leitura bastante surpresa dos homens. Instaurou-se ali, na controversa rede de Zuckerberg, uma situação de fala na qual tornou-se impossível fazer-se de surdo diante dos abusos pelos quais familiares, amigas, professoras, colegas de trabalho e conhecidas passaram.

Esta hashtag, que foi um acontecimento e também uma jurisprudência, consistiu em uma irreversível tomada de fala por parte das mulheres, que segue colocando em xeque o patriarcado, através dos relatos cujos protagonistas foram anonimizados através da hashtag #meuamigosecreto. Mas se a primeira mobilizou grande empatia, esta última foi recebida como uma espécie de carapuça à qual muitos homens reagiram, defendendo-se e, por vezes, desqualificando todo o movimento. Aqui fica patente a incapacidade de compreender este dispositivo de anonimização fora da captura patriarcal do movimento feminista a partir de sua redução a uma “guerra dos sexos” que, até onde sei, não foi jamais proposta por nenhuma feminista.

A guerra entre opostos inconciliáveis, enquanto modo de pensamento e ação, é essencialmente patriarcal. Parece-me mais produtivo pensar que as ações relatadas foram anonimizadas justamente porque seu relato indica uma lógica que é irredutível a um sujeito, o que nos força, homens e mulheres, a fazer uma auto-crítica que nos permita agir com mais consciência das repercussões de nossas ações no mundo. Trata-se menos de um acerto de contas (embora, claro, agressores devam ser punidos!) do que de uma pedagogia que parte de testemunhos que são também metonímias de um contexto mais amplo e de uma complexidade que, finalmente, começamos a encarar.

Este texto é sobre isto: testemunho e metonímia. E Walter Benjamin é o ponto de partida porque é a partir de dois projetos artísticos que quero pensar esta questão, que repercute, sem dúvida, na luta das mulheres, no facebook e nas ruas. Um dos projetos é  La feria de las flores, da artista Núria Güell, o outro é Metonímia del cuerpo de Carme Gomila, Citlali Hernández, Marina Colomina e Alejandra Mate.

Metonímia del cuerpo tem como ponto de partida o artigo “Mi -nuestra- genealogía de la agresión sexual”, publicado por Lucía Egaña Rojas em 24 de janeiro de 2014. A reação ao relato de Rojas – que consiste na descrição de várias agressões sexuais sofridas por ela desde a infância e no processo de tomada de consciência de que se tratavam efetivamente de agressões -, é o compartilhamento por parte de várias leitoras de experiências semelhantes. A reivindicação de um lugar não-vitimizante, mas também não-silenciador com a qual a artista encerra seu relato é bastante eficaz, ativando na seção de comentários da página um espaço de partilha, reflexão e tomada de consciência, através da palavra, de que as situações incômodas, indescritíveis e das quais muitas mulheres se envergonham, são situações de violência sexual.

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O vídeo-dança algorítmico de Carme Gomila, Citlali Hernández, Marina Colomina e Alejandra Mate lança mão de uma programação que fragmenta a sintaxe de alguns dos relatos presentes do texto de Rojas, bem como daqueles suscitados pelo texto e apresentados nos comentários. Tais fragmentos são categorizados e armazenados em quatro blocos: contexto, agressão, resposta e reflexão. Cada bloco é composto pelas seguintes sequências: 1. Contexto – Idade, lugar, agressor; 2. Agressão – Situação, ação, sensação; 3. Resposta – Pensamento, resposta imediata, consequência e; 4. Reflexão – citação textual. A relação destes relatos com o corpo é explorada através do registro de movimentos e gestos que remetem a três estados emocionais relacionados aos blocos. A distância da câmera em relação aos corpos é determinada pela proxêmica, noção desenvolvida pelo antropólogo Edward T. Hall para dar conta das diferentes distâncias que separam os corpos em interações sociais específicas. Cada frase constituinte dos blocos narrativos está vinculada a um ou vários clipes de vídeo e cada vez que alguém acessa o site, o algoritmo cria uma sequência  de textos e imagens que, embora construída algoritmicamente, não se afasta em nada de uma realidade possível. Esta mediação algorítmica dos corpos e das narrativas coloca em evidência a tensão entre os vários traumas vividos e testemunhados por cada mulher de modo pessoal e intransferível e o caráter corriqueiro e estruturalmente consistente deste tipo de violência.

CORTESÍA-DE-NURIA-GUELL

Já o último projeto da artista Núria Güell, que pode ser visitado até março de 2016 no Museu de Antiloquía, na Colômbia, recorre a uma tecnologia bem mais antiga para abordar uma faceta igualmente perversa do patriarcado: através do testemunho oral a artista coloca em pauta exploração sexual infantil na Colômbia, parte sombria de um modelo de cidade progressista e cosmopolita. Em La feria de las flores, realizado no âmbito do Encuentro Internacional de Arte de Medellín, a artista propõe uma visita à obra de Botero guiada por menores de idade que foram exploradas no contexto de expansão do turismo sexual na região. As menores conduzem xs visitantes pelas obras nas quais Botero utiliza prostitutas como modelos e se apoiam em suas experiências pessoais, relacionadas à exploração sexual infantil, à coisificação do corpo feminino e aos hediondos catálogos de venda de virgindade que circulam pela cidade, para (re)apresentar esta produção.

Não falar neste cenário tenebroso de violência misógina não torna ele mais iluminado. O texto de Lucía Engaña Rojas antecipa em alguma medida (como diria Benjamin) as hashtags #primeiroassédio e #meuamigosecreto. Metonímia del cuerpo, ainda em 2014, apropriava-se poeticamente dos efeitos deste texto para endereçar as tensões entre o pessoal e o público, o singular e o universal, que atravessam os casos de agressão sexual contra a mulher. Em 2015 Núria Güell, quase simultaneamente à emergência e difusão destas hashtags no Brasil, apela ao testemunho em carne e osso, à moda antiga, de crianças exploradas sexualmente na Colombia para, num só gesto, dar visibilidade a uma situação extremamente violenta e escovar à contra-pêlo a própria história da arte. Se por um lado a arte pode antecipar, como quisera Walter Benjamin; por outro, não dá pra esquecer que ela não está fora ou acima da lógica patriarcal e misógina que é indissociável do que hoje conhecemos como sociedade. Ainda hoje, como bem lembrado e estatisticamente verificado pelas Guerrilla Girls:

Naked1989

Icaro Ferraz Vidal Junior

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