Um dia, uma noite, 24 horas

Esta noite tem vernissage da exposição Um dia, uma noite, 24 horas, última etapa do projeto de mesmo nome da artista Fernanda Gomes, com a participação de Milena Travassos e Raphael Couto. Compartilho abaixo o texto que escrevi para a exposição, que poderá ser visitada a partir de hoje no Centro Cultural Oduvaldo Viana Filho – Castelinho do Flamengo.

seleção 01 milena_56fernanda_22

Na gênese de Um dia, uma noite, 24 horas está um tema caro à poética de Fernanda Gomes, idealizadora do projeto: o gesto de oferecer de presentes. Três artistas, a própria Fernanda Gomes, Milena Travassos e Raphael Couto realizaram, ao longo de um dia, ações em espaços públicos na Lapa e no Largo da Carioca, regiões centrais da cidade do Rio de Janeiro. Tais ações, registradas em vídeo e fotografia, foram projetadas na noite seguinte, nos mesmos espaços em que ocorreram. A documentação deste processo, bem como os objetos com os quais os performers compuseram suas ações, adentram agora o Centro Cultural Oduvaldo Vianna Filho, em uma exposição que testa as possibilidades de reverberação do espaço público da rua, com as trocas que abriga, no interior do espaço expositivo.

Cada artista propôs uma ação a ser desempenhada em um lugar da cidade a partir de suas próprias investigações e práticas. Intermitências, de Milena Travassos, aconteceu das 6:00 às 8:30 da manhã em frente ao Palacete do Visconde de Paranaguá, situado na rua de mesmo nome, na Lapa. A a(pari)ção fantasmagórica da artista diante das quase-ruínas do edifício do período imperial que inspirou “Palacete dos Amores”, poesia de Manuel Bandeira, criou uma atmosfera na qual alguns objetos que ela vem pesquisando – os espelhos, a lâmpada, a cômoda, as bolas de gude vermelhas – reaparecem em simbiose com a própria edificação. O assombro promovido pelo edifício, e anestesiado pelo cotidiano para quem vive na região, é restituído por Milena aos passantes, encarnado nas enigmáticas bolas de gude vermelhas que ela oferece.

Estudo para cartografias III: Da finalidade das coisas, de Raphael Couto, investiu na coleta e organização de objetos encontrados em mercados informais de antiguidades e quinquilharias, popularmente conhecidos como shopping chão. A partir da artisticidade de objetos de diferentes proveniências, formatos e utilidades, o artista erigiu uma coleção que foi exposta no tradicional shopping chão da Rua da Lapa. Na ação, que ocorreu das 10:00 às 12:00 horas o artista leu, com um megafone, um texto no qual misturou trechos de sua autoria e citações de críticos de arte sobre a finalidade e a função dos objetos. Enquanto lia, Couto amarrou estes objetos a seu corpo.

Por fim, Banho de amor, de Fernanda Gomes dá continuidade a sua reivindicação do espaço público como lugar de experimentação e interação social, a partir da oferta do que a artista chama de presentes poéticos. No movimentado Largo da Carioca, das 17:00 às 19:00 horas, a artista instalou uma piscina inflável vermelha junto a uma placa onde se lia “Banho de Amor Grátis”. Os passantes que aceitaram a oferta receberam da artista, posicionada sobre uma escada junto à piscina, uma chuva de papéis multicoloridos picados.

Pensar estas três ações como presentes ganha ainda mais vigor se colocarmos sob suspeita, como fez Marcel Mauss em seu Ensaio sobre a dádiva, a ideia de que presentear é um gesto desinteressado, de puro altruísmo. A extensão da prática econômico-cultural de trocar presentes nas sociedades arcaicas, descrita em detalhes por Mauss, testemunha o papel crucial desempenhado pela troca na criação e manutenção dos laços sociais. Os presentes poéticos ofertados em Um dia, uma noite, 24 horas – um assombro, um novo olhar para os objetos, um banho de amor – parecem ser, de fato, as retribuições de três artistas cujas práticas nutrem-se do mundo social. Aceitar a vida social como um presente implica, para estes artistas, a obrigação de uma retribuição mas também, e sobretudo, o reconhecimento e a afirmação de uma aliança, de uma comunhão.

Última etapa de Um dia, uma noite, 24 horas, a presente exposição não teria sido possível se a população da cidade do Rio de Janeiro tivesse recusado os presentes oferecidos por Fernanda Gomes, Milena Travassos e Raphael Couto. Que a documentação e os vestígios destas trocas, agora reunidos no Castelinho do Flamengo, potencialize e preserve o Potlatch nosso de cada dia.

Icaro Ferraz Vidal Junior

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s