O que pode o prazer? A reinvenção do hedonismo

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No mês passado estive em Barcelona por ocasião da festa-performance-show Hedonismo Crítico – reinvenção e reivindicação – , organizada por Mariokissme e R. Marcos Mota, que juntas compõem a Equipe El Palomar. Com os recursos obtidos para participarem na exposição “Cuando las líneas son tiempo”, organizada pela Fundação Miró, elas decidiram reunir em um noite cerca de 20 artistas de diferentes proveniências e gerações no espaço da Sala Hiroshima. O nome do evento orientou as intervenções que, mais ou menos interativas, partilhavam a afirmação do corpo como espaço onde convivem simbioticamente prazer e crítica.

Marta Echaves assinala perspicazmente em seu texto sobre o evento a potência desta saída do asséptico cubo branco para o espaço do teatro que, tradicionalmente associado à “impostura, ao postiço, ao superatuado e ao desmedido”, poderia quase ser entendido como seu antônimo. No teatro, os excessos e dissonâncias das performances apresentadas parecem atualizar uma espécie de cabaré que, a despeito de todas as tentativas de assimilação pelo circuito institucional da arte, manteve-se, em alguns momentos da história mais do que em outros, nas franjas da “cultura oficial”.

Uma ressalva importante, ainda a partir do artigo Echaves, consiste na adjetivação do hedonismo proposto por El Palomar. Trata-se de um hedonismo crítico que não cai, portanto, na armadilha denunciada por Michel Foucault no primeiro volume de sua História da Sexualidade, de se pensar o investimento do poder sobre os corpos e o sexo exclusivamente a partir de uma lógica repressiva. Sabemos bem (e se não sabemos ainda, basta olharmos para as imagens das publicidades de perfume de marca) que a midiatização de uma suposta “liberação” sexual pode perfeitamente servir à afirmação das mais perversas lógicas (racista, colonialista, misógina etc.) além, é claro, de ser uma commodity bastante lucrativa.

Mas não há marcha-à-ré na história e xs artistas reunidos por El Palomar não propuseram uma tábula rasa desta história de colonização do sexo pelo capital. Hedonismo crítico, semente plantada por El Palomar, transformou-se na noite do dia 13 de março, através de um trabalho coletivo, em um conceito consistente que pôde ser incorporado (mais do que assimilado por uma mente desencarnada) por quem teve a chance de participar desta festa que, não tenho dúvidas, será revisitada pelos historiadores do futuro.

Foram 7 horas de diferentes experiências (uma espécie de vaudeville queer), inesgotáveis neste ou em qualquer outro post, mas integradas coerentemente nesta grande festa, que mostrou ser possível, teórica e praticamente, um hedonismo crítico. Guiadxs por Regina Fiz, iniciamos os trabalhos entrando debaixo da saia barroca de Hotel Butterfly, fizemos twerking para a revolução com Raissa Maudit, entramos em transe com Andrés Senra, aprendemos a hackear objetos para o prazer anal com o “palomo cojo” de Paquito Nogales, descobrimos o potencial do cu como espaço expositivo com María Perkances e Jordi Flekos, dançamos um funk lacrante com Pêdra Costa, entre muitas outras coisas.

prazer é poder

Este mês, do outro lado do Atlântico, no Rio de Janeiro, o curador José Bernardo de Souza e a artista Susana Guardado dão início às atividades da plataforma Prazer é Poder. Arte, hedonismo e contracultura serão investigados ao longo de um programa de conversas, performances, festas e ações artísticas que ocorrerão a partir do dia 20 de abril, quando Marcos Chaves e Bernardo Mosqueira se encontrarão na Despina-Largo das Artes para conversar sobre praia, corpos, sexo e prazer e o filme Day and Nightshot (Oferta e Procura), de Marcos Chaves para a série Destricted será exibido.

Parece tratar-se, mais uma vez, de uma aposta estética, política e epistemológica na potência do caráter disruptivo que emerge quando decidimos viver juntxs. Iniciativa louvável e urgente neste nosso presente esquisito em que fundamentalismos de toda ordem atravessam, com diferentes roupagens, todo o mundo. Acredito que, como em Hedonismo Crítico em Barcelona, não haverá espaço para niilismo em Prazer é Poder, afinal, não faltam no Rio de Janeiro exemplos bastantes concretos de que, como já dizia nosso querido antropófago, “a alegria é a prova dos nove”.

O programa de ações da plataforma pode ser conferido aqui.

Icaro Ferraz Vidal Junior

 

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