O duplo jogo do corpo de Agatha Brum.

Alguns artistas trabalham nos limiares entre presença e representação, entre materialidade e sentido. Algumas vezes, estas poéticas ancoram-se na observação de que estas divisões são procedimentos artificiais e que, efetivamente, em nossa história, os sentidos sempre se inscreveram na carne. Situar as performances e os vídeos da jovem artista brasileira Agatha Brum nesta tradição permite-nos revisitar as fundações do patriarcado através de seu próprio corpo, que atualiza poeticamente a violência sofrida por personagens femininas de um passado cujo barbarismo atravessa, ainda hoje, a condição feminina.

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Agata é também o nome da virgem, hoje santificada e padroeira da Catânia, na Itália, que após resistir às investidas sexuais de Quintianus, um senador romano, foi perseguida, torturada, arrastada por cima de cacos de vidro e brasas acesas e teve seus seios arrancados com alicates, tendo-se tornado também a Santa protetora dos seios. Na vídeo-performance Santa Agata (2014), vemos o torso nu de Brum, seus seios envoltos em ataduras. Em seguida, seus seios expostos serão violentamente manipulados pelas mãos de um homem cujo rosto não vemos, ele está na escuridão do fundo do quadro. Esta manipulação transforma-se no ato mesmo de envolvimento/deformação dos seios da performer.

Em Cravejada (2015), já não são os seios mas os longos cabelos que são a matéria prima da poética de Agatha Brum. Inspirada pela Papisa Joana, única mulher que teria dirigido a Igreja Católica após disfarçar-se de homem para escapar à interdição de estudar, a performer intervém sobre seu próprio cabelo com seiscentos grampos, até que este esteja completamente dissimulado. Entendido historicamente como símbolo de atração sexual, o cabelo da Papisa Joana foi escondido por uma tiara cravejada para revelar uma glória mais preciosa do que os cabelos mortais. Novamente aqui, o símbolo é matérial e as imagens de Brum dão a ver um processo quase escultórico sobre seu próprio corpo.

prt_1464780566Já a performance Quero ser Vênus (2014) recorre à Deusa romana do amor e da beleza para questionar os padrões estéticos que, embora variem historicamente, impõem-se perversamente sobretudo às mulheres. Nesta ação, a artista disponibiliza marcadores pretos aos participantes que podem inscrever sobre seu corpo as transformações que realizariam para “adequá-lo” ao que entendem ser um corpo belo. O resultado desta intervenção é uma imagem que poderia ser encontrada nos arquivos de uma clínica de cirurgia plástica mas que remete também às pinturas corporais primitivas. Novamente, a corporeidade desempenha um duplo papel, como matéria (meio) e como elemento da cultura.

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Este duplo jogo de um corpo que opera em dois registros pode ser também observado em Explode coração (2014) e em Corpos em Eco (2012). No primeiro trabalho, após experimentar o sofrimento de uma ruptura amorosa, a artista voltou ao local onde tal ruptura se deu e submeteu seu corpo ao ataque de seiscentos balões cheios de água e groselha, dando (cor)po a esta dor subjetiva. Já Corpos em Eco, projeto coletivo realizado em colaboração com a fotógrafa Violeta Assumpção e com as performers Nadja Dulci e Panmela Ribeiro em uma paisagem natural na cidade de Lavras Novas, em Minas Gerais, propunha o estabelecimento de uma relação entre os corpos das performers e os elementos encontrados nesta paisagem. As imagens que resultam deste processo remetem, intencionalmente ou não, à Gaia, deusa primordial, mãe do céu, dos mares e das montanhas.

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Se na origem estava Gaia, a pesquisa de Brum adquire consistência histórica a partir de um confronto e de uma experimentação constantes com a materialidade de seu próprio corpo. Sua trajetória, iniciada com uma formação em teatro, seguida de uma formação em dança foi marcada pelo sentimento de inadequação. O entre-lugar no qual o corpo de Agatha desenvolve-se não contempla nenhuma dramaturgia ou coreografia. Agatha Brum está mais próxima dos médiums, pronta a incorporar as forças originárias do patriarcado que, mais do que regime discursivo, econômico ou de parentalidade, é a origem mesma da barbárie.

Icaro Ferraz Vidal Junior

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