Migrar no aberto do mundo

Hoje inaugura, no Musée des Gueules Rouges em Tourves (Var), a exposição De l’autre côté, de Cyrille André, com a qual tive o prazer de colaborar escrevendo o texto crítico para o catálogo.

Compartilho abaixo uma tradução integral do texto ao português.

 

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Migrar no aberto do mundo

As obras de Cyrille André apresentadas na exposição De l’autre côté (Do outro lado), no Musée des Gueules Rouges dividem-se em dois eixos fundamentais. De um lado, elas abordam o tema da migração geográfica dos povos; os processos de deslocamento que nutrem a poética do artista são os mesmos que ingressaram com força na agenda política e midiática deste começo de século. Mas se trata também da migração como imagem que fornece, talvez, a base ontológica da nossa mortalidade, a última migração para o outro lado da vida. Outra característica comum a todas as obras apresentadas em Tourves é a sua realização em alumínio. Este material conecta intimamente a prática artística de Cyrille André ao Musée des Gueules Rouges. A exposição é povoada por figuras humanas e animais e concebida como um percurso que revela que os processos migratórios são também dotados de uma materialidade, que frequentemente se impõe.

Tomar uma posição em relação ao tema da migração requer uma sensibilidade e uma inteligência que o artista demonstra possuir. Suas escolhas não apelam jamais aos choques e escândalos que são agenciados pelos meios de comunicação e que desembocam em uma espécie de anestesia que esgota qualquer possibilidade de empatia e, consequentemente, de uma ação propriamente política. A prática de Cyrille André opera por uma série de metáforas que se dão a ver através de suas esculturas, nas quais figuram humanos e/ou animais, ou ainda figuras híbridas humano-animal. A relação do homem com o animal alimentou uma grande parte da produção filosófica no ocidente, onde a ideia de humanidade foi construída por oposição à animalidade e em paralelo a outras oposições, como as que separam natureza e cultura, corpo e espírito etc.

Giorgio Agamben, no ensaio intitulado O aberto, retoma a genealogia da ideia de aberto tal como ela foi traçada por Heidegger. O ponto de partida deste último encontra-se nas Elegias de Duíno na qual “aquele que vê o aberto ‘com todos os seus olhos’ é o animal, claramente oposto ao homem, cujos olhos, ao contrário, foram ‘invertidos’ e colocados ‘como armadilhas’ no interior dele mesmo”. Esta ideia colocada em questão pelo filósofo alemão parece produtiva a fim de compreendermos como, evocando as figuras animais em sua prática, Cyrille André produz uma obra capaz de promover uma expansão do olhar humano. A ausência de um olhar orientado a seu próprio interior inscreve o animal no aberto do mundo. Apesar da dependência de certos elementos que lhe são topologicamente exteriores (alimentos, por exemplo), o animal inscreve-se na densidade do mundo sem apelar às clivagens identitárias que dão ao “Eu” uma interioridade ameaçada por um outro que lhe seria completamente exterior e estrangeiro.

 

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Transmigration (2014)

 

As figuras antropomórficas na obra de Cyrille André são frequentemente engajadas na aprendizagem desta espécie de destemor animal. Em Transmigração (2014), por exemplo, andorinhas, pássaros migrantes por excelência que percorrem anualmente mais de 10000 quilômetros quando de sua migração invernal, portam um homem de tamanho monumental. O artista concebeu esta obra como uma alegoria da transferência da alma do migrante de seu próprio corpo para o corpo social ao qual este deverá se integrar em seu país de destinação. Esta transferência conserva uma certa tensão através do contraste entre o bando de andorinhas e a solidão da figura humana que, apesar de sua monumentalidade, não é autônoma. Uma tal tensão coloca em evidência os limites éticos do projeto político e filosófico ocidental. Estes limites são tributários justamente dos esforços de uma definição do humano pela negação do que ele não é, ou seja, do animal pensado como antagonista do homem. Este sistema terminou também por criar o modelo do individualismo ocidental que opõe o “Eu” ao outro e que, em um certo sentido, colocou os fluxos migratórios no centro das querelas geopolíticas contemporâneas.

 

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Sentinelle (2008)

 

As figuras híbridas compostas de corpos de homens com cabeças de animais, Gorilla (2015), Rhino (2014) et Sentinelle (2008), apresentam uma outra leitura das clivagens entre o humano e o animal. A ausência sistemática de rostos nas figuras humanas de Cyrille André coloca em relevo a riqueza simbólica agenciada por estas figuras híbridas, cuja condição física é dupla, o humano é animalizado e o animal é humanizado. Talvez estas figuras já tenham transmigrado e o destino do homem carregado pelos pássaros também seja um devir-andorinha. A evocação de toda uma codificação simbólica e arquetípica dos animais iniciada por esta série de obras nos lembra da artificialidade do divórcio entre o homem e a natureza, condição mesma do conceito de humanidade, tal como o pensamos ainda hoje.

 

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Naufrage (2016)

 

A instalação inédita Naufrage (2016) apresenta um conjunto composto de quatorze peixes em alumínio sobre uma superfície recoberta de areia. Apesar da rigidez da matéria de que são feitos os peixes, a composição guarda o dinamismo da luta instintiva de cada peixe pela sua sobrevivência. Esta instalação é uma homenagem aos numerosos migrantes que morrem afogados tentando atravessar o Mediterrâneo sobre barcos improvisados. Esta obra convida o visitante a um exercício de perspectivismo, o conceito de naufrágio sendo sempre dependente do confronto entre um ser vivo e um meio que lhe é estrangeiro – de fato, os peixes naufragam sobre o mesmo solo que nos acolhe e nos é familiar, da mesma maneira que nós estamos sujeitos ao risco de naufrágio sobre uma embarcação em pleno mar. Seria preciso, portanto, desembaraçarmo-nos de todo narcisismo a fim de cultivar relações menos hierarquizadas com o outro.

As múltiplas camadas de sentido assim como as numerosas relações possíveis com as obras fazem da exposição De l’autre côté um evento no qual o aberto do mundo figura em seus múltiplos aspectos: semântico, simbólico, ontológico e material. A utilização do alumínio para a realização das peças expostas revela de modo tangível esta mesma condição migrante e, talvez, naufragada do humano. O sublime neste processo é sobretudo material. O alumínio em fusão escorre diretamente sobre o molde contendo a forma talhada em um poliestireno de alta densidade. O molde passa, então, diretamente do estado sólido ao estado gasoso por um processo de sublimação. Podemos dizer que a desaparição (o naufrágio) da matéria permanece virtualmente presente em cada uma das obras em alumínio cujas formas foram emprestadas do poliestireno desaparecido.

É preciso reter, deste fato, que toda criação implica e guarda a memória de uma destruição, de um naufrágio, mesmo se esta desaparição não é necessariamente material. De l’autre côté oferece aos visitantes uma experiência estética através de suas criaturas, enigmáticas e sedutoras em suas formas, em seus significados e em suas materialidades. Mas a exposição confronta também o público a alguns desafios éticos que já não podemos ignorar sem nos tornarmos cúmplices das atrocidades cometidas contra os humanos e contra o planeta. As soluções para resolver estes desafios não serão encontradas na arte, elas ainda não existem; precisamos construí-las! Mas apostamos que a prática de Cyrille André pode funcionar como um poderoso catalisador destes processos de construção.

Icaro Ferraz Vidal Junior

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